quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A garota da rua de um banco só...

Hoje acordou cedo Candice ... ela viu o dia com olhos do amanhã, não conseguia respirar, sufocou-se com tantos aprisionamentos, não comia, bebia ou dormia...Não em sua mente pelo menos. Qualquer coisa que deparava sentia sufocada...Precisava buscar liberdade, onde encontraria, onde e como poderia voar, se é que um dia teria oportunidade, pensava.
Agora iniciei minha busca-disse pra si mesma- o problema é que não sei por onde começar. Olhou a sua volta, uma rua de quinhentos metros, com algumas árvores em cada lado da rua a cada vinte metros, casas de formatos parecidos, ou idênticos a não ser por algum toque particular que cada morador dava em sua moradia, e carros, passavam lentamente a cada dez ou vinte minutos, alguns animais domésticos se encontravam em suas casas ou volta e meia entre si enquanto seus donos passeavam, já os selvagens estavam apenas de passagem, passageiros da rotina, continuava ela a não entender onde estava, pensou em ir para casa, mas decidiu sentar em um banco que descansava em uma das calçadas dessa rua, que aos olhos da garota parecia looonga demais e ao mesmo tempo apertada, curta, estreita, e pequena rua sufocante de sua rotina.
Sentou-se no banco e observou o que parecia dois pardais , brigando, brincando ou namorando, não conseguia distinguir, pois se batiam e bicavam um ao outro, mas logo se aproximavam e apenas pulavam em volta um do outro, o que acontecia perguntava ela, não lembro desses passarinhos tão engraçados, ah que pena voaram para longe, mas não paravam de rodear um ao outro até sumirem do campo de visão de Candice.
--O que será que pensavam?- perguntou-
Logo não pode deixar de notar um que fazia um barulhinho irritante sobre sua cabeça, o que fez com que olhasse para a copa da árvore que ficava ao lado do banco que sentara, aquele animalzinho peludo raspava a casca de algum fruto duro que colhera de uma árvore, mas ela percebeu que ipês não dão frutos que era a árvore que repousava ao seu lado.
--De onde este garoto colheu esse fruto?- questionou –
E ao olhar para frente, pouco acima de um telhado, atrás de uma casa havia uma árvore que dava de comer a esse menininho, pequeno e engraçado, mas sempre atento ao movimento dela e do resto.
--Mas que trabalho você teve vindo até aqui, por que fez isso?- parecia perguntar a um amigo – Olha só caiu de sua mão o fruto, agora com um enorme buraco, ela juntou o fruto enquanto o esquilo corria na direção da casa que escondia o coqueiro, acho que convenceu-se de que não havia caído nada, e sim abandonado por ele, pois o que lhe interessava era o miolo que já estava a digerir, então ela riu sozinha naquele banco solitário.
Ao retornar ao mundo da visão, um cachorro fuçava um latão de lixo que estava a uns vinte metros dali, parecia muito bem alimentado para estar revirando a lata, provavelmente algo chamava sua atenção ali. Lá vem um homem, o cão latiu, mas com tom de medo, e sua calda estava entre as pernas, com a cabeça baixa que alternava com um latido, corria de costas, e corria e latia, com medo , até entrar no seu castelo, fortaleza com muralhas intransponíveis, então num súbito, ele se inflou, levantou a cabeça como um imperador e virou na direção do homem , e latia, latia , latia, estava forte , ninguém podia derrota-lo, mais uma vez, Cand sorriu, com ar de graça e admiração ao mesmo tempo.
Uma folha de sua companheira árvore caiu em seu colo, ela sentiu e seu sorriso cessou, pegou com as duas mãos aquela folha que poderia ser segurada com dois dedos, sua delicadeza com aquele fio de cabelo de sua companheira árvore era admirável, as nervuras, o caule, a cor, que já estava mudando para amarelo com marrom, com uma pequena mordida de inseto na parte lateral esquerda, que ainda estava verde, olhou novamente talvez a segunda vez para a árvore, e viu que alguns bulbos das flores já começaram a nascer, e percebeu quantas vezes não notara esses detalhes- todas (menos esta) – e sorriu, quantas vezes não havia sorrido com tanta graça e admiração- várias(menos hoje), e logo entrou em um novo universo, o da seriedade, parou de pensar, de olhar, esse novo universo não era tão novo assim, lembrava que esse era o universo em que ela vivia antes, Tudo era o Tudo e, Nada, era o Vazio, voltou ao mundo novo que descobriu hoje,e viu que o Nada era tão cheio quando o Tudo, e o Tudo era nada quando ela não reparava detalhes que eram o Nada, daí então caiu na gargalhada, ria muito , sorria para tudo que estava a sua volta.
--Como não havia notado essas coisas antes? Só podia estar dormindo – criticou-se – em que mundo estou, ou em que universo me encontrava antes ?..
--!Saiaa daí Garota! esse banco foi colocado hoje ! – uma voz áspera e rígida fez a garota cessar seu sorriso por completo , e ao mesmo tempo se levantou num pulo, já se virando com os olhos arregalados e a face branca do susto, seus olhos penetraram os olhos do homem, que também ficou branco com o profundo olhar da garota que perfurou toda a rigidez do homem , houve um longo silêncio...... Cand então piscou, olhou para o banco e voltou a olhar para o homem
-– esse banco é seu senhor ?? - o homem apenas balançou a cabeça ainda meio assustado, então Candice lançou-se na direção do homem com um abraço, um abraço dos mais fortes e sincero que ela já havia dado a uma pessoa, largou o homem do abraço, olhou novamente para ele e disse :
-- Muiiitoo Obrigado senhor pelo seu banco. – completou a frase com um sorriso de graça e de admiração que havia tido várias vezes durante essa viagem maravilhosa, e o homem que antes assustado e antes ainda áspero , soltou um sorriso também de graça e admiração:
-- bem, volte sempre a esse banco – disse ele meio sem jeito –
Ela sorriu novamente e com um movimento de afirmação com a cabeça saiu correndo meio saltitante, na direção de sua casa, casa esta que atrás descansava um coqueiro e tinha um cão que tinha postura de imperador, mas que fora de sua fortaleza era um medroso, ainda correndo saltitante, entrou na sua casa, cumprimentou sua mãe com um lindo sorriso, sorriso que foi retribuído, subiu até seu quarto deitou na cama rindo de tudo, botou a mão sob o travesseiro, retirou seu diário enquanto ouvia a melodia de dois passarinhos que cantavam sobre o forro do seu quarto, abriu o diário e escreveu:
----Olá mais uma vez meu companheiro, hoje descobri a liberdade , percebi que a liberdade está em você saber ver as coisas ao seu redor, hoje eu voei com os passarinhos, defendi minha fortaleza, colhi frutas para me alimentar... hoje eu nasci, ou seria melhor dizer: hoje eu abri os olhos para a beleza que me rodeava e antes era o Nada mas que pra mim se transformou no universo do Tudo, percebi que as coisas mais simples são as mais complexas, por que todos descartam a simplicidade, e não percebem o grande e complexo universo que elas te proporcionam.
--------- Um grande abraço meu amigo.

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